Tacada de mestre.
A partir daí,
começamos a debater essa inquestionável verdade: em determinadas relações,
ficamos muito mais sufocadas pela ausência do homem que amamos do que pela
presença dele. Creio que vale para ambos os sexos, aliás. Um namoro ou
casamento pode ser questionado dia e noite: será que tem futuro? Será que vou
segurar a barra de conviver com alguém tão diferente de mim? Será que
passaremos a vida assim, às turras? Óbvio que não há respostas para essas
perguntas, elas são feitas pelo simples hábito de querer adivinhar o dia de
amanhã, mas a verdade é que mesmo sem certificado de garantia, a relação
prossegue, pois, além de dúvidas, existe amor e desejo. E isso ameniza tudo. Os
dois estão unidos nesse céu e inferno. Até que um dia, durante uma discussão, um
dos dois se altera e termina tudo. Alforria? Nem sempre. Aí é que pode começar
a escravidão.
Nossa amiga queixosa, a da relação iôiô, perdia o rumo cada
vez que terminava com o namorado. Aí mesmo é que não pensava em outra coisa. Só
nele. Não conseguia se desvencilhar, mesmo quando tentava. Todas as suas
atitudes ficavam atreladas a esse homem: queria vingar-se dele, ou fugir dele,
ou atazana-lo – cada dia uma decisão, mas todas relacionadas a ele. Só quando
reatavam (e sempre reatavam) é que ela descansava um pouco desse stress
emocional e se reconciliava com ela mesma.
Eu nunca havia analisado o assunto por esse ângulo. Sempre
achei que a sensação de asfixia era derivada de uma união claustrofóbica e a
sensação de liberdade só era conquistada com o retorno à solteirice. Mas o
amor, de fato, possui artimanhas complexas.
Minha amiga finalmente terminou sua relação tumultuada e
hoje está vivendo um casamento mais maduro e sereno. Aquele nosso papo foi há
alguns anos, mas nunca mais esqueci dessa inversão de sentimentos que explica
tanta angústia e tanta neura. Por que temos urgência de abandonar um amor pelo
fato de ele não ser fácil? Quem garante que sem esse amor a vida não será
infinitamente mais difícil? Às vezes é melhor uma rendição do que fugir de um
amor que não foi vivido até o fim. Foi isso que nossa amiga psicanalista quis
dizer durante o jantar: não antecipe o término do que ainda não acabou, espere
a relação chegar até a rapa, e aí sim.
2 comentários:
ameeeeeeeeii primaa
:)
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